Meditações Metapsicológicas e Intrasubjetivas


Sans Ludor e a Musa da Noite - Parte II

                        "Porém, algo inesperado acontecera, ou estava para acontecer. Quando chegara quase ao topo da colina, pôde ouvir uma voz que cantava algo. Não era um lamento, mas sim uma bela melodia, em uma língua há muito esquecida por todos os povos, e que mesmo sem se poder entender o que diz, tem-se toda a sensação de paz que se poderia transmitir apenas pelo modo como as palavras soam aos ouvidos. Sua voz era de uma suavidade e doçura incríveis, tal que chegava aos ouvidos de um modo similar ao gosto da calda do pêssego no momento em que toca a língua, bem leve. Sans Ludor parecia ter perdido o controle, e toda sua calma foi convertida em desespero. Não era um desespero, porém, que pudesse fazer-lhe mal. Era, sim, desespero para encontrar quem era a dona daquela bela voz, que sabia tão bem articular as palavras e as melodias, pois estava apaixonado por sua voz. Correu então para cima da colina, tropeçando e caindo umas poucas vezes, mas mesmo assim não se deteve. Chegou ao topo, e pôde contemplar a cena mais bela que jamais veria: a musa Mira, que estava a banhar-se no lago de Norennar.

                        Não acreditava, porém, em seus olhos, achando que fosse uma visão ou alguma produção de sua mente, sua tão atormentada mente que estava a projetar a imagem da musa. Era tudo belo demais para que pudesse ser verdade. A Lua, essa estava grande e brilhava de modo intenso, ofuscante no céu por todo o seu esplendor, e fazia desnecessárias todas as estrelas ao seu redor, como se fosse brilhar pela última vez, para a seguir se apagar e tornar-se apenas uma marca na mente dos seres viventes. Abaixo dela, a imensidão do Norennar, e suas calmas, profundas e escuras águas transmitiam uma idéia de paz, sem falar da beleza de ver o imenso lago no horizonte, como se fosse apenas uma continuação do céu. E em uma de suas beiras estava ela, a Musa das Musas, Senhora da Noite: a musa Mira. Estava ela, ajoelhada na margem do lago, com suas vestes negras de detalhes prateados, a banhar-se nas límpidas e cristalinas águas do Norennar. Seu longo manto, negro como a noite, mas com detalhes cintilantes, estava a flutuar na água, mas ainda assim cobrindo seu esbelto corpo, enquanto a divina criatura pegava água com uma concha enorme, de forma semelhante a uma enorme taça, e derramava, deixando que escorresse por seu rosto e seus cabelos. Não parava de cantar por um momento que fosse, e entoava e cadenciava as notas de modo tão natural que nenhum ser mortal poderia escapar do encanto de sua música. Ficou então Sans Ludor perplexo ao presenciar tão rara e bela cena. A musa de joelhos na água, com sua concha em mãos, era algo lindo de se ver. Seus negros e longos cabelos estavam encharcados, e desciam ao encontro das águas do lago, nas quais ainda se punham a flutuar, e talvez por causa delas se mostrassem de um tom escuro e sinistro, mas mesmo assim ainda belo, mais forte do que nunca estivera antes. Seus olhos, esses sim eram olhos de uma deusa. Duas negras pérolas no intenso branco, branco esse que muito se assemelhava à neve. De tamanha beleza, poderiam deixar os homens em um estado de transe irreversível, pois olhar dentro de seus olhos é arriscar-se em um jogo de paixão e domínio, e indomável é a Musa da Noite e os seus desejos. Sua pele, essa ainda era mais macia que o algodão, mais suave que a seda, e seu perfume – natural da deusa, que havia tomado todo o ambiente – era algo indescritível; remetia-o a dias dourados, quando passeava pelos belos campos de Mara-Tou, compondo belas canções para louvar aos senhores da forja. Era um perfume intenso, que penetrava fundo, e agia na mente, embriagando e fazendo desejar mais e mais, e se deixando cada vez mais dominar pelo poder da divindade, como uma presa que desiste de lutar no último momento, e pensa ou até sabe que estará melhor como seu caçador o desejar que esteja. Seus lábios faziam movimentos vagarosos, modelando-se da maneira que a musa precisasse para articular sua bela voz, e eu podia sentir sua doçura somente pelo olhar."



 Escrito por RodrigoGrosskopf às 14h24
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