Sans Ludor e a Musa da Noite - Parte III
"‘E lá estava ela, e lá estava eu, e lá estávamos nós. Não parou de cantar, apesar de também não ter sentido minha presença. Foi então que, no mesmo êxtase incontido, peguei minha flauta, e comecei a entoar uma melodia em contraponto à sua, e ela não parecia perceber-me. Toquei mais alto, e nada parecia acontecer; e isso me entristecia, pois minha música era em louvor ao esplendor de sua beleza feérica. Foi então que toquei mais alto, e fiz com que Mira me ouvisse. Olhando para mim, continuara a cantar, fazendo o dueto com minha flauta. Mais do que eu, porém, ela podia oferecer palavras, frases, poesias, enquanto eu só podia dar-lhe notas musicais. Fiz daquela a mais bela música que já toquei, e ainda hoje toco sua melodia principal, e faço dela muitas vezes um lamento, pois não posso tê-la novamente junto a mim. Os segundos passavam rápido demais, e eu não podia acreditar no que acontecera no momento. Mira então fechou a canção, de modo suave, mesmo assim fazendo parecer que duraria para sempre, e olhou para mim.
Juro que senti muito prazer e orgulho no momento. Prazer, pois gostava de tocar; orgulho, pela companhia que tive para fazê-lo. Mira olhava para mim, e eu fui me aproximando devagar. Ainda estava longe, porém, e comecei a entrar no lago devagar, sempre caminhando em sua direção. Fez como se eu não estivesse presente, e continuou a tomar seu banho, deixando a água escorrer por seus braços, e ainda assim também esfregando-os. Quando cheguei perto, sentia como se estivesse fora do meu corpo, e comecei a sentir certa tonteira. Desmaiei, e caí nos braços da deusa. A última coisa de que me lembro foi de seu abraço, que num dia frio como aquele foi de um intenso calor, e me ferveu o sangue e aqueceu o corpo todo’."
Escrito por RodrigoGrosskopf às 23h14
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