Meditações Metapsicológicas e Intrasubjetivas


Sans Ludor e a Musa da Noite - Parte IV

                        "No dia seguinte, Sans Ludor acordou pela manhã, à beira do lago, deitado sobre a grama. Onde se encontrava, a mesma parecia estar mais fofa, mais densa e mais alta, como se propositalmente feito para servir-lhe de leito. Inclinou-se levemente, ainda meio atordoado e perdido em seus pensamentos. Olhava para os lados, era dia. Mira havia ido embora, ou teria sido somente uma imaginação, um sonho, um delírio seu? Pelo que tudo indicava, ela o havia abandonado no local. E foi levantando-se devagar o nobre Sans Ludor, e olhando em direção à colina. Haveria de atravessar novamente para a estalagem, e não sabia se contava aos amigos, se eles o entenderiam. Quando colocou a mão na cintura, não encontrou sua flauta, seu precioso instrumento, que por tanto tempo o acompanhara. Foi então que se preocupou, e começou a procurá-la.

                        Olhou em todo canto, perto de onde estava, e encontrou, na beira do lago, um instrumento aparentemente comprido e fino, revestido por um pano, encharcado. Aproximou-se vagarosamente, e resolveu então ver o que era. Ao chegar mais perto, pôde notar que se tratava de sua flauta, embrulhada em um pedaço do manto negro que revestia o corpo de Mira. Era sua maior recordação da deusa, além de ser uma prova de que tudo fora real – ou de que ainda se encontrava em estado onírico. Tudo lhe parecia mais belo agora. As flores e seu perfume, assim como as borboletas a voarem pelos campos próximos, e o canto dos pássaros. Sans Ludor se encontrava em estado de paz interior, novamente.

                       

            Para novamente expressar sua felicidade, pôs-se a tocar novamente a melodia tema de sua pequena obra, composta para sua Musa divina e inspiradora. E foi aí que sentiu algo de diferente. Sentiu que o som de sua flauta estava mudado. Que estava mais doce, mais suave, mas não menos belo. Do instrumento, emanavam notas com tal beleza que tocavam cada vez mais fundo os corações daqueles que viriam a ouvi-la, e o músico sabia que era tudo graças à deusa. Sua voz havia, de certa forma, se incorporado ao som de sua flauta, talvez como uma forma de mostrar gratidão pelo tema composto. Sans Ludor estava ainda mais feliz agora. E começou a tocar a flauta, para que todos os que quisessem ouvir, pudessem fazê-lo, numa alegria infindável, e muitos animais pararam para prestar atenção em sua música. ‘Ela gostou da música, gostou do que fiz em sua homenagem’, pensou o nobre bardo. E foi assim que voltou à estalagem, tocando, dançando, com a flauta em mãos. Dizem que nunca mais encontrara a sua Musa da Noite. Mas os contadores de histórias mais antigos afirmam que ele hoje é menestrel em um palácio prateado, da cor da Lua, em um plano além dos conhecimentos da razão humana, onde vive e toca com sua amada, a Musa Mira, Senhora das Noites e dos Desejos Noturnos”.



 Escrito por RodrigoGrosskopf às 22h43
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